Revista Veja, Software Livre e Falácias
Como não poderia deixar de ser, a revista "Veja" continua atacando toda atitude do governo atual. No caso atingindo o Software Livre. De maneira extremamente simplista, ela afirma que o fato do governo federal ter apoiado o software livre causou queda do Brasil no ranking dos países que melhor usam TI.
OK... Vamos por partes:
Além disso, a matéria, em um de seus quadros afirma categoricamente:
Ao presentear países vizinhos com programas produzidos pelo governo federal, Lula tirou mercado de empresas brasileiras.
O fato de empresas de outros países estarem usando o software produzido no Brasil de maneira livre não implica em que elas não irão pagar nada por ele. Muito provavelmente esses países irão acrescentar coisas ao software. De repente, Argentinos desenvolverão documentação, peruanos acrescentarão códigos, venezuelanos irão depurar. E isso tudo poderá ser acrescentado (na maior parte dos casos) ao software produzido no Brasil.
Mesmo sendo petista, tenho que admitir que SL não pode ser reduzido a um movimento puramente partidário. Existem pessoas mexendo com SL por todos os motivos: altruísmo genuino, ganhos financeiro, conhecimento, expressão artística, aprendizado, desafio, ou até mesmo a pura falta do que fazer! :P Portanto, o argumento da Veja:
A oposição aos programas comerciais – leia-se aí a Microsoft, fabricante do sistema operacional Windows e a maior empresa mundial de software – é uma bandeira do PT.
É falacioso: se chama generalização
A mesma linha contem outra falácia:
Essa falácia é chamada de ataque ao homem e inclui também generalização e linguagem preconceituosa. Não existe nada que impeça o governo Lula de usar Software Proprietário. No caso, foi feita uma opção pelo Governo Federal em utilizar software livre.A posição está baseada, em parte, na desconfiança ideológica que o partido nutre em relação às grandes corporações capitalistas.
A matéria também desonera o fato do tratamento que é dado ao software proprietário e a tendenciosa predileção por ele. Se não pode existir predileção pelo SL, por lógica também não pode existir pelo Software Proprietário.
Perceba uma questão também, no primeiro parágrafo citado:
A oposição aos programas comerciais – leia-se aí a Microsoft, fabricante do sistema operacional Windows ... (Grifo meu)
Existe muito que não se fala nesse debate e que a revista Veja, famosa pelos seus "argumentos" e conhecida como um exemplo do que não se fazer como jornalismo (pergunte no Observatório de Imprensa) simplesmente se fez de muda, o que é estranho se considerarmos que o Grupo Abril se beneficia do SL (e creio que não pagou a nenhuma consultoria por isso), como é divulgado pela própria Info Exame (revista do grupo focada em TI). Foco-me nas questões de:
- Como foi a opção do governo pelo SL;
- O que levou o país a cair em ranking;
Livre Acesso por Falcon_Dark
Nenhum governo pode dar-se ao luxo de desconfiar de grandes corporações capitalistas, seja ele brasileiro ou não. Verifica-se facilmente isso buscando informar-se sobre quais são os fornecedores de suprimentos, equipamentos, insumos, software e treinamento do governo. Diversas multi-nacionais estão entre os fornecedores do governo, grandes corporações capitalistas, não só para TI, mas para várias outras áreas. Dizer que o governo opta pelo software livre porque desconfia de grandes corporações é enganoso. Os motivos pelos quais o governo decidiu-se pelo software livre estão listados e explicados publicamente, exatamente para que um debate adulto possa se desenvolver sobre o tema. Talvez o governo anterior não tenha feito esta opção pelo SL porque à época ele não estava maduro o suficiente para os padrões determinados. Talvez o governo anterior tenha decidido que, na época, o custo de implementar SL ainda fosse maior. O fato é que o governo anterior usou software proprietário em escala porque achou que era melhor assim, o atual optou pelo software livre por pensar da mesma forma, ambos agiram como empresas agem quando escolhem o que adotar. É claro que existe um manto ideológico ao redor do SL, e também um manto político. E não é assim com todo o resto, principalmente no tocante à administração pública?
O viés ideológico existe? Sim, realmente existe. Mas o que também existem é:
- O amadurecimento contínuo do SL. Temos diversas ferramentas poderosas desenvolvidas "de graça" por pessoas de todo o mundo, como GNU/Linux, OpenOffice.org (que roda em Windows também), as ferramentas Mozilla (Camino, Seamonkey, Thunderbird e Firefox - e que roda em Windows também), o editor GNU EMACS (que roda em Windows também), o editor de imagens GIMP (que... bem, você entendeu o recado). Perceba que "de graça" está entre aspas pois (1) o software livre é livre, mas não necessariamente de casa e (2) quem usa software livre acaba invariavelmente pagando, com tempo de estudo, documentos, apostilas, palestras, e até mesmo em dinheiro...;
- Experiências bem sucedidas com o uso de Software Livre para redução de custos e viabilidade tanto técnica quanto social da TI. Casos como os dos Telecentros (São Paulo e Porto Alegre) e de Rio das Ostras e do Paraná (curiosamente citado na matéria da Veja, mas sem mencionar o software livre), e de empresas como Renner, Casas Bahias, Carrefour e Pão de Açúcar comprovam que o Software Livre é viável e que vem fornecendo mercado para muitas empresas de consultoria;
- Há muito pouco investimento em educação no Brasil, e menor ainda nas TIC: nós não aprendemos a utilizar o melhor potencial do SL, que é o código, para aprendermos e melhorarmos (e contribuirmos, como é a regra do jogo). Muitas vezes, para nós, o que vale é que as coisas "custam 10 reaus" na barraquinha ching-ling (perceba que mesmo aqui não temos brasileiros :( ). Nossas faculdades não ensinam aos alunos fundamentos básicos de estudo de código ou de desenvolvimento que permitam que o mesmo explore os conhecimentos em potencial armazenado dentro de códigos que custariam milhões de dólares e que estão disponível livremente para estudo. Citando o estudo de David A. Wheeler, pesquisador norte-americano, "More than a Gigabuck: Estimating GNU/Linux's Size"
Particularmente, custaria mais de 1 bilhão de dólares desenvolver esta distribuição GNU/Linux (NT: no caso, a Red Hat 7.1, com todos os pacotes incluídos nela) pelos meios proprietários convencionais nos estados unidos. (....) Além disso o Red Hat Linux 7.1 inclui mais de 30 milhões de linhas reais de Código (Source Line of Code - no caso, descontando-se linhas de comentários e afins), enquanto o 6.2 continha 17 milhões de linhas. Usando a métrica e modelo de custo COCOMO (NT: métrica usada em engenharia de software para estimativas de custo de um software), esse sistema exigiria algo em torno de 8 mil anos-pessoa de tempo de desenvolvimento (comparando-se com os 4.500 anos-pessoa da versão 6.2) (...). Isso tudo graças a um crescente número de programas de software livre/código aberto maduros ou em amadurecimento disponíveis ao redor do mundo. (Tradução minha).
- Iniciativas de inclusão digital das pessoas não vem sendo tomadas ou, quando tomadas, são de maneira pouco crítica e sem respeito a necessidades locais. Projetos como o FUST estão engavetados, por pressões provocadas por causa de decisões políticas equivocadas, muitas delas que procuravam, de maneira capciosa, favorecer a Microsoft. Claro que ela não poderia deixar barato. Citando novamente o Fábio Luis:
Se em lugar de falar de software estivéssemos falando de carros, por exemplo. Poderíamos dizer que uma licitação que busca comprar automóveis de 4 portas deve excluir veículos de 2 portas por definição. Uma empresa que só fabrica automóveis de 2 portas poderia afirmar que o governo não pode pedir carros de 4 portas apenas porque ela não os fabrica? Obviamente não. Mas a Microsoft afirma que o governo não pode querer comprar software livre porque isso a exclui da licitação. Em lugar de oferecer um produto dentro dos parâmetros técnicos que o comprador exige a Microsoft busca mudar as expectativas e necessidades do cliente para que ele compre o produto que ela fabrica.
Livre Acesso por Falcon_Dark
Uma padaria que precisa de um sistema operacional para seus caixas compra o mesmo software que uma empresa aérea para seus balcões de atendimento. Provavelmente a empresa aérea tem mais chances de conseguir algum tipo de adaptação funcional para seus sistemas, ainda que certamente a pequena padaria pagará um preço maior por cada cópia adquirida. Ao comprar um Windows você paga um preço cobrado pelo desenvolvimento de tudo que está naquela caixinha, não importa se você vai usar aquilo ou não. Talvez você não rode aplicações legadas de Windows95, mas o código para elas está lá em algum lugar e você foi cobrado por elas. (...) O modelo do software livre é mais moderno e busca estar mais atento às reais necessidades do cliente. Em qualquer software livre você pode não só adicionar coisas que seu negócio precisa, mas também pode retirar coisas que você não precisa, o que pode tornar o software bem mais barato. Ainda que a pequena padaria não queira pagar um fornecedor para adaptar um Linux para suas necessidades, ela ainda conta com mais três alternativas. A própria padaria pode adaptar o software, se algum funcionário seu souber como fazer isso. Ela pode pagar para um profissional autônomo fazer isso, o que talvez seja mais barato que as duas alternativas anteriores. Ou ela ainda pode conseguir executar a alternativa mais barata de todas, que é encontrar por aí, na internet, um software que já esteja pronto porque uma pequena padaria de Lisboa passou por esse processo antes, e como o software é livre você pode usá-lo sem problemas.
Essa é a oportunidade que o Brasil tá perdendo, por falta de capacitação de seus profissionais, não pelo uso de SL.
Espero que tenha ficado clara minha posição... Por favor, comentem e concordem, discordem, acordem ou recordem, mas enfim, não fiquemos parados!
Technorati Tags: Política, Veja, Software Livre, Governo, Brasil
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